Conversa pra militar dormir

Fosse eu deputado, estaria fazendo a mesma coisa. Muito esquisito esse negócio de enviar a previdência dos militares “daqui a 30 dias”.

“Ah, mas é que não deu tempo”.

Conversa pra boi dormir. Dava muito bem para ter destacado mais um grupo técnico para trabalhar na proposta. E, veja só, justo a previdência dos militares ficou de fora pelo “excesso de trabalho”. Que coincidência!

O que deve ter acontecido é que não chegaram a um acordo. Ou seja, os militares têm a prerrogativa de negociarem sua própria previdência antes mesmo dos deputados.

A propaganda do governo diz que a Nova Previdência é para todos. O que os deputados estão dizendo é que esse “para todos” não pode ser um slogan vazio.

A voz dos “especialistas”

O Valor foi consultar “especialistas” em Previdência.

Aí você vai ver, e são o ex-ministro da Presidência do Lula e da Dilma (aquele que andava na garupa da ex) e o presidente do DIEESE.

Claro que o jornal pode ouvir e publicar as bobagens do PT. Faz parte.

Agora, dar uma roupagem “científica” ao que não passa de luta política, isso é alquimia jornalística.

Parabéns, Valor, por mais esse desserviço prestado.

O Brasil está lascado!

“Mais lascados do que estamos, impossível”, diz o funcionário público de farda.

Vou perguntar pro sem teto que mora aqui na rua de casa, no coração de Pinheiros, se é possível estar mais lascado, e já volto.

O drama da empresa brasileira

São muitas histórias tristes por trás do fechamento da fábrica da Ford. É a mãe que paga a faculdade das filhas porque o marido, caminhoneiro, teve o seu caminhão roubado. É o pai do filho autista, que depende do convênio médico da empresa para o tratamento do filho. Sim, os dramas pessoais são imensos.

Assim como são os dramas dos quase 12 milhões de desempregados brasileiros, que caminham feito zumbis em busca de um trabalho. 12 milhões que não têm a sorte dos empregados da Ford, cujo caso mobiliza um batalhão de políticos em busca de uma “solução negociada” (leia-se, subsídios).

O prefeito de São Bernardo entrou com uma ação no Ministério Público do Trabalho, exigindo “esclarecimentos” da empresa. Ora, a Ford não tem “obrigação” de criar empregos. A companhia tomou uma decisão empresarial: cansou de queimar dinheiro do acionista em uma operação que perdeu mais de R$ 4 bilhões nos últimos 3 anos. Os dramas pessoais são duros, mas a conta não deveria cair nas costas da empresa.

A Ford, assim como milhares de empresas de todo Brasil, responsáveis pela demissão de milhões de pessoas, tem dificuldade de lidar com o sistema tributário mais insano do mundo, que serve para sustentar uma casta de funcionários públicos que não podem ser demitidos nem ter seus salários diminuídos e uma corja de políticos que buscam se promover nas costas das desgraças da população. Não conseguem lidar com uma justiça do trabalho surreal, onde qualquer “juiz do trabalho” (outra excrescência brasileira) pode colocar por terra qualquer negócio.

Claro, podem existir incompetência do empresário, uma mudança significativa de mercado, uma recessão, que explicam o fim de uma empresa. Isso faz parte do jogo e empresas fecham no mundo inteiro. Mas a dificuldade de se fazer negócios no Brasil sem dúvida joga um papel fundamental na mortalidade das empresas e, por consequência, na destruição de empregos.

O empresário brasileiro, aquele que cria os empregos, é um sujeito de fé. Acredita que mesmo com as bolas de ferro da carga tributária, da justiça trabalhista e da burocracia, ainda assim vai conseguir gerar valor para o acionista. Muitos ficam pelo caminho, deixando um rastro de milhões de desempregados. A Ford é só a ponta do iceberg.

Os amigos do rei

Há alguns dias postei um conjunto de notícias mostrando que o agribusiness sobrevive de subsídios governamentais.

Agora “descobrimos” que a indústria automobilística só sobrevive no Brasil também com base em subsídios.

O governo tem seus motivos para manter setores inteiros sobrevivendo na base de subsídios, pagos com o dinheiro dos impostos. Desde a preservação de empregos “de qualidade” até o troca-troca de votos no Congresso, passando por uma etérea “dinamização da economia”, o que quer que isso signifique.

Não sou contra a que se baixem impostos. Mas que seja para todos, horizontalmente e não para um punhado de eleitos. Por que a agricultura ou a indústria automobilística pagam menos imposto, enquanto o seu Zé paga mais no seu bar?

A dura realidade é que falta dinheiro para manter hospitais, fazer saneamento básico e investir no ensino básico. Não tem “bancada da saúde pública” ou “bancada do saneamento”. A verdade é que o orçamento da União é destinado a quem tem o lobby mais influente, e é usado para manter vivas atividades econômicas que destroem valor. Sim, porque se uma atividade econômica só consegue gerar lucros na base do subsídio, está, no final do dia, destruindo valor.

O “crony capitalism” ou “capitalismo de compadres” é tudo, menos capitalismo.

Método

Era óbvio que os áudios Bolsonaro-Bebianno iriam aparecer. Não se humilha uma pessoa em praça pública sem troco, se essa pessoa puder dar o troco.

Pode até ter havido quebra de confiança, e os áudios indicam que potencialmente houve sim, com ou sem culpa de Bebianno, pouco importa.

Isso é uma coisa.

Outra coisa é a forma ginasiana como o assunto foi tratado. Qualquer neófito em política sabe como se demite um ministro: primeiro diz que está prestigiado, depois chama o dito-cujo, diz que ele está demitido e combina com o demitido a melhor forma de sair.

Chamar o demissionário de mentiroso em rede social é jogar gasolina na fritura. Uma falta de habilidade política espantosa.

A não ser que…

A não ser que seja método. Um aviso de que todo auxiliar que quebrar a confiança do presidente será pendurado pelado de cabeça para baixo em praça pública.

Bebianno é um personagem absolutamente irrelevante. A República não vai cair com ele. A vida continua. Mas o episódio serviu para mostrar que ou falta a Bolsonaro habilidade política ou o presidente tem um método de tratar auxiliares que pode se voltar contra ele ao longo do tempo. O vazamento dos áudios foi somente uma amostra.

O sigilo bancário do advogado

Mariz de Oliveira, dono de um dos mais prestigiados escritórios de advocacia do país, teve o sigilo bancário quebrado por um juiz de 1a instância.

Nem o próprio advogado teve acesso ao pedido, mas já adiantou que há pagamentos feitos ao doleiro Lúcio Funaro, seu ex-cliente e delator no caso contra o ex-presidente Temer, o qual também foi cliente do nobre advogado. Tudo limpo, comprovado por e-mails, segundo Mariz.

Houve uma gritaria geral da classe, em um raro momento de união entre todas as associações, de todas as colorações ideológicas. Um verdadeiro espírito de corpo.

Sim, a relação advogado-cliente deve ser preservada. Ninguém é obrigado a produzir provas contra si mesmo. Isso é uma coisa.

Outra coisa é o escritório de advocacia se converter em um ponto cego do sistema financeiro nacional, inalcançável sob qualquer hipótese. Se assim fosse, se converteria no instrumento perfeito para lavagem de dinheiro.

A quebra de sigilo bancário é ato grave, não somente contra advogados, mas contra qualquer cidadão. É ato que deve ser acompanhada de sólido embasamento. No caso, deduzo, pela “confissão” de Mariz, tenha se baseado em delação de Lúcio Funaro.

Mariz de Oliveira diz que está absolutamente tranquilo com relação à quebra do sigilo, que pode explicar todas as movimentações. Inclusive, já adiantou uma, sem ninguém pedir nada. Então, por que o barulho?

Ao caracterizar a quebra do sigilo bancário como um ataque à relação cliente-advogado, Mariz e as associações de advogados estão tentando aumentar o custo político deste tipo de ação. Querem continuar sendo um ponto cego do sistema financeiro nacional. Se eu fosse um advogado honesto, que não pactua com relações pouco transparentes com seus clientes, estaria neste momento apoiando a iniciativa do juiz do caso.

Eu gostaria de ter escrito esse texto


Pare e pense: você seria capaz de viver com R$ 387,07 por mês?

Duro, não?

Mas acredite: há 52 milhões de brasileiros sobrevivendo com essa quantia por aqui. Se nós colocássemos todas essas pessoas numa ilha, ela seria mais habitada que o Canadá e a Espanha.

E R$ 220? Impossível?

Segundo o IBGE, há outros 24,8 milhões de brasileiros vivendo com ainda menos do que isso. Incríveis 12,1% da população.

Se você não tem muita dimensão do que isso significa, eu desenho: há uma Austrália vivendo no Brasil com dinheiro suficiente no mês apenas para abastecer um carro com 52 litros de gasolina, ou adquirir 14 Big Macs, ou ainda conseguir pagar a metade de uma cesta básica. E mais nada.

E tem gente em situação ainda pior. Outros 4,4 milhões de brasileiros – o equivalente a uma Croácia – se viram como podem todos os meses com o mesmo que dois ingressos de cinema: R$ 73.

Se você ainda tinha alguma dúvida é a hora do fim da inocência. Nós indiscutivelmente não somos um país rico – dos brasileiros que trabalham, metade recebe menos que um salário mínimo por mês.

É uma vida do cão. E nas piores condições.

São quase 100 milhões de pessoas (mais do que a população da Coreia do Sul e da Argentina somadas) sem coleta de esgoto, 17 milhões (uma Holanda) sem acesso à coleta de lixo e outras 4 milhões (mais que um Panamá) sem um mísero banheiro em casa.

Eu não faço ideia de quem você seja, mas a sua situação é certamente melhor do que essa. Só por estar lendo este texto tenho certeza que o seu futuro é mais promissor que o de 50 milhões de brasileiros analfabetos ou analfabetos funcionais que não seriam capazes disso.

Também sei que você é mais rico que 35% da população sem qualquer conexão à internet.

Com um salário de R$ 1.500 por mês você ganha mais que 84% dos baianos. Com R$ 2 mil você está melhor que 91% dos maranhenses. Com R$ 2.500 você está acima de 86% dos mineiros. Com R$ 3.500 você está na lista dos 10% com os maiores salários do Brasil.

E o pior: você provavelmente nem sabia disso.

9 em cada 10 brasileiros acham que estão na metade mais pobre do país. Nós somos tão ignorantes a respeito da nossa condição socioeconômica que 68% dos brasileiros que ganham ao menos R$ 4.700 por mês – ou seja, entre os 7% mais ricos do país – acham que estão na parte de baixo da pirâmide social.

E antes que me esqueça – nós evidentemente somos um país com diferenças salariais abissais entre a imensa maioria da população e uma pequena parcela de brasileiros que recebem bem acima desses valores.

Mas não é como se dividir o dinheiro de todo mundo de forma igual fosse uma opção. Primeiro porque esse dinheiro dividido não resolveria a vida de ninguém – a renda domiciliar per capita no Brasil é de R$ 1.268.

Segundo porque essa tentativa já foi realizada em mais de vinte países no século passado e resultou apenas em fuga em massa, desemprego, baixa produtividade, escassez de produtos básicos e violência generalizada.

A grana iria secar rápido.

Como resolver? Não tem outro jeito: aumentando a nossa produtividade.

E eu sei que isso soa economês castiço, mas é bem mais simples do que parece.

A produtividade geral do trabalho no Brasil está entre as mais baixas do mundo: US$ 19,52 por pessoa empregada por hora. A média dos países analisados pelo International Institute for Management Development é de US$ 40,54.

Ou seja: se colocar um brasileiro e um gringo para produzir um prego, eles produzirão o dobro da gente no mesmo espaço de tempo. Nós seremos humilhantemente derrotados.

E não será por acaso.

A nossa educação é pior que a deles. A nossa infraestrutura também. Mas especialmente: as nossas leis são as mais estúpidas do mundo.

Neste momento, cada empresa brasileira segue uma média de 3.796 normas tributárias, com mais de 11 milhões de palavras – o correspondente a quase 6 quilômetros de normas para cada uma delas; uma fila interminável de papel.

Literalmente não há nenhum outro lugar do planeta onde isso aconteça.

Segundo o Banco Mundial, nós estamos apenas na posição 109 no ranking de facilidade de fazer negócios – atrás de Zâmbia, Tonga, Guatemala e Namíbia.

Tudo isso bloqueia a nossa produção de riqueza. E essa não deveria ser uma posição ideológica: o maior programa social é o crescimento econômico. Mesmo os defensores de uma maior presença do Estado na vida das pessoas deveriam entender que a única maneira de construir bem-estar social sustentável é destravando os mecanismos capazes de aumentar a renda média da população.

Não existe milagre.

Passou da hora de medir riqueza pela sua régua. Você vive numa bolha de classe média. Tem gente lá fora sofrendo de verdade. Gente suja, ignorante e mal paga, abandonada por instituições com cada vez menos poder de proteção.

Essas pessoas deveriam ser a prioridade do país. É no colo delas que cai cada tragédia.

E aqui, só entre nós: redistribuição de renda não resolverá os nossos problemas. O esgoto neste país é muito mais baixo. E ele fede muito menos na sua casa.

– Rodrigo da Silva, editor do Spotniks

A bolha nossa de cada dia

A colunista do Estadão canta em prosa e verso as vantagens de uma escola da periferia. De Nova York e por apenas um ano, que fique claro.

Quando se tratou da coisa pra valer, o ensino de seu filho aqui no Brasil durante vários anos, às favas a “diversidade” e a “experiência fora da bolha”. O filho da jornalista foi matriculado em uma boa escola classe média alta.

Não consigo pensar em exemplo mais acabado de esquerda caviar, aquela que canta as vantagens de um “outro mundo possível” enquanto não abre mão de todas as vantagens que o capitalismo mais selvagem lhe oferece.

A jornalista chega a criticar os pais nova-iorquinos que se mudam para tentar matricular seus filhos em escolas mais “brancas”, abrindo mão das supostas vantagens da diversidade sociocultural. Diversidade esta que certamente não existe na escola particular de seu filho no Brasil.

Não consigo deixar de comparar essa situação com as excursões organizadas por agências de turismo nas favelas do Rio. Os turistas visitam as favelas como se estivessem visitando um zoológico, para ver de perto aqueles bichos, como vivem, do que se alimentam. Os turistas têm, assim, uma experiência do que seja a “pobreza”.

A experiência do filho da jornalista foi como uma visita ao zoológico. Depois de ter a experiência de conviver com os bichos durante um ano, a vida real é uma boa escola particular branca. Dá asco.