OCDE e combate à corrupção

A OCDE, um dos objetos de desejo do governo Bolsonaro, está preocupada com os efeitos, para o combate à corrupção em altas esferas, dos últimos eventos envolvendo o COAF. Mais especificamente, com a liminar de Toffoli manietando o antigo COAF, em benefício de Flávio Bolsonaro, e com os malabarismos feitos com o órgão pelo próprio governo.

Espero que a missão da OCDE em Brasília saia convencida de que continuamos firmes e fortes no combate à corrupção, com o empenho decisivo deste governo. Caso contrário, ficaremos ainda mais distantes da tão sonhada vaga no “clube dos ricos”.

O que é fake news?

O Estadão traz semanalmente a tradução da coluna de Fareed Zakaria, articulista do Washington Post. Sua tendência é mais à esquerda, mas seus textos costumam ser lúcidos.

Hoje, Zakaria comenta sobre a eventual obrigação do FB de barrar fake news. E explica, com um bom exemplo (abaixo) como é difícil fazer isso. Zakaria se pergunta se estaríamos confortáveis em delegar para Zuckerberg a tarefa de ser censor da democracia.

Durante as eleições do ano passado, abordei o tema das chamadas “agências de fact checking”, que tinham como missão separar o que é fato do que é fake. Usei dois exemplos para mostrar que essas agências falhavam ao ficar apenas no nível mais superficial da checagem.

O primeiro exemplo era uma foto antiga com uma moça muito parecida com Dilma Rousseff ao lado de um Fidel Castro jovem. Pela idade de Dilma, a presença da ex-presidente naquela foto era uma impossibilidade cronológica. Portanto, fake.

O segundo exemplo era uma foto de Sérgio Moro conversando animadamente com o ex-candidato Aécio Neves em um evento onde os dois se encontraram. Portanto, a foto era verdadeira.

Mas este é apenas o primeiro nível de checagem, o nível factual. O segundo nível, o da interpretação, é completamente diferente, como bem notou Zakaria em seu exemplo.

É pública e notória a aproximação da esquerda como um todo, e de Dilma em particular, com Fidel e o regime de Cuba. Uma foto de Dilma com Fidel é apenas um detalhe jocoso é irrelevante nessa história.

Por outro lado, uma foto de Moro com Aécio em um evento não prova absolutamente nada. Aliás, é justo o contrário: se de fato eles tivessem um relacionamento obscuro a esconder, teriam evitado fotos juntos em um evento. Foi meio constrangedor, mas não mais do que isso.

A primeira foto era falsa, mas o fato subjacente era verdadeiro. A segunda foto era verdadeira, mas o fato subjacente era falso. Como um censor ou um classificador lidaria com isso? Como disse Zakaria, esses critérios de checagem de fatos não são tão simples quanto parecem. Talvez seja o caso de deixar espaço para o bom senso das pessoas.

Um pote assim de mágoas

Palavras de Ciro Gomes, um pote até aqui de mágoas.

Palavras que descrevem Lula melhor do que qualquer discurso de seus adversários tradicionais.

Palavras que devem ser guardadas e lembradas quando Ciro Gomes enfiar o rabo entre as pernas e aceitar fazer aliança com Lula novamente.

Evo Morales golpista

Vamos deixar claro: foi Evo Morales que tentou mais um golpe na Bolívia. O exército só disse “enough is enough”.

Evo passou uma legislação em 2009 permitindo somente dois mandatos consecutivos. Só havia duas leituras possíveis: ou ele poderia concorrer somente mais uma vez (como fez FHC aqui), ou não poderia concorrer novamente, dado que a legislação sob a qual ele se elegeu não permitia reeleição. O tribunal constitucional (controlado obviamente por Evo) inventou uma terceira interpretação: a nova legislação inaugurava uma nova era, então Evo poderia concorrer mais duas vezes, o que de fato ocorreu.

Em 2016, já ao final de seu 3o mandato, Evo patrocinou um referendo para aprovar reeleições infinitas. Perdeu, mas o tribunal constitucional cancelou o resultado do referendo, dizendo que impedir a reeleição era um “atentado contra os direitos humanos”. Como se vê, não é só o nosso STF que é criativo.

Com o direito achado na rua de concorrer mais uma vez, Evo foi para a sua 4a eleição consecutiva. A contagem de votos foi interrompida quando totalizavam 83% dos votos apurados e indicavam um 2o turno, e foram retomados quando totalizavam 95% dos votos, indicando vitória de Evo no 1o turno. Relatório da OEA afirma que é “estatisticamente impossível” que isso tenha acontecido. Houve fraude, em uma eleição da qual Evo nem tinha o direito de participar.

Evo é o golpista. Que fique muito claro.

Escolas “interessantes” e o interesse dos jovens pelos estudo

Pergunte a qualquer adolescente, de qualquer estrato social, se ele prefere ir para a escola ou ficar em casa jogando videogame. Dou um doce para quem encontrar algum santo que prefira ir para a escola.

Estão querendo colocar sobre o sistema educacional uma carga que pertence à família. A escola, assim como depois o trabalho profissional, é interessante no máximo 10% do tempo. Os outros 90% consistem em quebrar pedra.

Tornar a escola “interessante” é uma utopia, vendida por consultores que trazem os exemplos das escolas nórdicas perfeitas, onde os alunos vão para as aulas felizes e contentes. Sou capaz de apostar um mindinho que em uma pesquisa na Finlândia sobre ir à escola ou jogar videogame em casa, o resultado não seria muito diferente do Brasil ou de qualquer outro país do mundo. Adolescente só muda de endereço.

O que mantém o adolescente na escola é a pressão e o exemplo da família e, em certa medida, da comunidade. O adolescente que cresce ouvindo que o estudo é importante, que tem pai e mãe que concluíram o ensino superior ou pelo menos o ensino médio, que vê exemplos de estudos na família e na comunidade onde vive, ficará na escola mesmo “sem interesse”. Será por dever, e por um prêmio maior mais à frente.

Claro que tudo o que possa contribuir para tornar a escola “mais interessante”, como por exemplo o uso de técnicas didáticas inovadoras, agrega. Mas nunca será um substituto para o papel da família e da comunidade. O buraco é bem mais embaixo.

Enem e o “jeitinho” brasileiro

Minha filha voltou irritada da prova do ENEM ontem. Pelo segundo domingo consecutivo, o mesmo rapaz vizinho a ela abriu a prova antes de começar o tempo da prova. Como se trata de uma competição por vagas, como garantir que aquele rapaz não iria conseguir uma vaga que era de alguém que respeitou as regras?

A irritação da minha filha se deu não tanto pela atitude do rapaz, mas pela dos monitores que estavam acompanhando a prova. Segundo ela, viram e fizeram de conta que não viram.

A leniência dos monitores pode ser explicada por dois motivos. O primeiro é o temor de criar um barraco e, no limite, colocar em risco a sua própria integridade física. Nunca sabemos qual será a reação da pessoa que teve a sua prova suspensa. O segundo é a leniência própria do brasileiro com relação às leis: ok, tem horário pra abrir a prova, mas não vamos levar assim tão a ferro e fogo, não vai fazer tanta diferença assim.

O antídoto para o primeiro é simples: basta deixar o candidato fazer a prova toda, entrega-la, e anular depois. Este procedimento seria informado de antemão, de modo que ninguém deveria ficar surpreso se sua prova fosse anulada por trapaça. É assim que funciona, por exemplo, na prova para a obtenção do CFA (Chartered Financial Analyst), a maior certificação internacional de finanças. Essa prova é um grande ENEM global, e os monitores vêm de outros países. Como seria impossível discutir com os candidatos no momento da prova, aqueles que tentam trapacear são marcados e recebem uma cartinha posteriormente informando de sua desclassificação e o motivo.

Com relação à leniência, infelizmente não existe antídoto. Faz parte do DNA do brasileiro. “É assim mesmo, não vamos fazer uma tempestade em copo d’água”. O brasileiro é cordato e não quer entrar em conflito. E assim, o jeitinho e a malandragem preenchem o vácuo criado pela passividade e pela leniência.

Tenho quase certeza que as fotos da prova do ENEM vazaram por uma combinação de farra dos candidatos com leniência dos monitores, que certamente viram a coisa acontecer mas não quiseram interferir. O ministro minimizou o fato porque provavelmente não se trata de um esquema elaborado de fraude, mas apenas uma brincadeira boba de alguns imbecis.

No entanto, ao invés de minimizar o fato, o ministro deveria pensar em modos de treinar e dar poder aos monitores, para que candidatos cumpridores das regras não tenham desvantagem em relação àqueles que trapaceiam. Afinal, este é um governo que diz dar valor à meritocracia.

Qual a diferença entre Evo e Maduro?

Por que Evo aceitou renunciar após somente alguns dias de protestos, enquanto Maduro continua firme e forte à frente do governo venezuelano?

A resposta parece simples: Evo perdeu o apoio do exército, enquanto Maduro não só tem o apoio das Forças Armadas como controla forças paramilitares. Estas são até piores, pela sua capilaridade.

Evo está pagando o preço de não ter montado um Estado policial. A tecnologia, típica de Estados totalitários, foi importada de Cuba, e tem como objetivo tocar o terror naqueles que são contra o regime. Precisa ter coragem para se juntar a manifestações contra o governo, sabendo que seu vizinho pode denunciá-lo à polícia do regime.

Maduro não seguirá o rumo de Evo, a não ser que a Venezuela receba uma “ajudinha” externa.

Bolsonaro e o desastre educacional brasileiro

A articulista Renata Cafardo escreve uma coluna sobre educação no Estadão. Seu esporte preferido, como aliás o de todos os militantes da área, tem sido atacar o governo Bolsonaro.

A questão óbvia, e que fica mais óbvia quanto mais esse pessoal escreve sobre as mazelas da educação, é como chegamos a este ponto depois de décadas de políticas implementadas por governos que supostamente têm preocupação social. Bolsonaro está há menos de um ano no poder, e gostemos dele ou não, o fato é que a tragédia educacional brasileira não foi construída por este governo.

Vejamos o exemplo deste artigo. Renata desfila uma série de estatísticas horrorosas, mostrando a desigualdade social que a educação supostamente deveria diminuir. Mas, e essa é a conclusão universal, o governo Bolsonaro está trabalhando na direção oposta, de aumentar a desigualdade. Como se estas estatísticas horrorosas não tivessem sido produzidas pelos governos anteriores.

O exemplo mais recente: o governo agora inventou de unir os orçamentos de saúde e educação em um só, o que supostamente faria aumentar as verbas de saúde e diminuiria as verbas de educação. Sem entrar no mérito de que esta decisão entre saúde e educação deveria sim ser discricionária dos governos e não uma previsão constitucional, o exemplo usado por Renata carece de lógica.

Segundo a articulista, foi a destinação constitucional de verbas para a educação que permitiu o surgimento de certas ilhas de excelência educacional no Nordeste. Ela se refere a Sobral, no Ceará, exemplo nacional de como se pode fazer muito com pouco. Fica o mistério de porque o dinheiro carimbado para a educação conseguiu produzir somente uma ilha de excelência no país inteiro. Será que foram realmente os 25% constitucionais que fizeram a diferença? Se sim, por que não há outras ilhas de excelência? Aliás, por que a educação no Brasil não se transformou em uma grande Sobral e continua essa josta? Afinal, 25% do orçamento todo mundo tem.

Agora que o governo Bolsonaro propõe juntar os dois dinheiros carimbados em um só, passa a ser o grande vilão, aquele que vai acabar com a educação brasileira. Olha, vai ter que trabalhar muito para superar a obra de seus antecessores.